Agências de inteligência americanas por trás da perseguição aos imigrantes japoneses; Contexto geopolítica do kachigumi e makegumi; Relatório do Brasil 10 dias após o ataque a Pearl Harbor 《Coluna do Repórter》
Relatório sobre o Brasil que chegou ao presidente Roosevelt
A "contenda entre kachigumi e makegumi" da sociedade de imigrantes japoneses é frequentemente narrada como um conflito de nacionalismos dentro da própria comunidade. No entanto por trás disso estava profundamente marcada a política internacional da época, especialmente a estratégia americana para a América do Sul. Pressões maiores que não podem ser explicadas simplesmente como "conflito de mentalidade patriótica japonesa" estavam em ação.
Em 18 de dezembro de 1941, dez dias após o ataque a Pearl Harbor, chegou à mesa do presidente americano Roosevelt um relatório da organização predecessora da CIA. Tratava-se de uma análise de 30 páginas sobre os movimentos de organizações pró-alemãs e órgãos de segurança no Brasil, que também mencionava a existência de investigações sobre imigrantes japoneses. A desconfiança em relação aos japoneses que se espalhava no governo e na sociedade brasileira desde antes da guerra foi fortalecida sob essa guerra de informações internacional.
Quanto ao motivo pelo qual ocorreu a contenda entre kachigumi e makegumi, não se pode falar dela sem mencionar a perseguição aos imigrantes japoneses pelo governo e povo brasileiros desde antes e durante a guerra. Essa tensão se acumulou tanto que se tornou como uma panela de pressão prestes a explodir, sendo aquecida lentamente, e, quando o estopim (derrota do Japão) foi aceso, explodiu de uma só vez - essa foi a contenda entre kachigumi e makegumi. Em outras palavras, tal contenda foi um "resultado" e não uma "causa".
A estrutura da "perseguição aos imigrantes japoneses" tem aspectos de discriminação racial por parte dos brasileiros que não estavam acostumados com pessoas de origem asiática, mas, mais do que isso, foi fortemente influenciada pela estrutura geopolítica da Segunda Guerra Mundial.
O documento mencionado anteriormente é um relatório detalhado sobre política, segurança e forças pró-alemãs no Brasil coletado pelo governo americano (principalmente COI/posteriormente OSS) (CIA-RDP13X00001R000100010004-9) e está disponível no site da CIA. Esse documento foi enviado a Washington por informantes (espiões) no Brasil sobre os movimentos de altos funcionários do governo brasileiro, órgãos de segurança, militares, atividades de organizações de apoio nazista no país e movimentos anti-governamentais de cidadãos comuns.
Relatório sobre a situação no sul do Brasil com forte influência alemã
Segundo esse relatório, no Brasil da época existiam fortes tendências pró-nazistas na polícia, órgãos de propaganda e parte dos militares. Especialmente o chefe da Polícia Nacional, Felinto Müller, o diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), Lourival Fontes, e o ministro do Exército, Gaspar Dutra, eram apontados como cooperativos na manutenção da influência alemã no país. Essas pessoas protegiam as operações da companhia aérea italiana LATI no Brasil, o que os americanos consideravam um problema grave de segurança nacional.
Ao mesmo tempo, o relatório detalha a reorganização do movimento integralista (fascista). O ex-líder Plácido Salgado enviou cartas do exílio aos membros do partido, pedindo que, agora que a "nova ordem" europeia estava se estabelecendo, os integralistas se reunissem novamente e cooperassem com o Estado Novo para que o Brasil pudesse participar dessa ordem.
A existência de atividades de espionagem alemã também é enfatizada em várias cartas. É apontado que oficiais militares alemães entravam e saíam do sul do Brasil com passaportes diplomáticos e que reuniões nazistas em São Paulo eram realizadas no hospital alemão, com envolvimento de comerciantes pró-alemães locais e da sociedade imigrante.
Por outro lado, embora o governo brasileiro mostrasse externamente uma postura favorável à cooperação com os Estados Unidos, na realidade a cooperação com os americanos era limitada, e os analistas americanos consideravam isso uma "tática para diminuir a vigilância americana". Como as facções pró-alemãs dentro do governo ainda mantinham forte influência, os americanos alertavam que não se devia confiar demais na postura do Brasil em relação à Alemanha.
Na segunda metade do documento também são registradas insatisfações e manifestações populares nas províncias. A proibição de exibição de filmes desencadeou protestos em regiões com muitos imigrantes alemães que a polícia não conseguiu controlar, e também ocorreram situações em que alguns soldados não obedeceram às ordens. Esses não foram rebeliões políticas, mas geraram ansiedade sobre a capacidade de ação do governo, levando ao remanejamento de militares e policiais.
O documento relata detalhadamente que o Brasil de 1941 estava sob forte influência das potências do Eixo, com base em forças pró-alemãs, órgãos de segurança, militares, organizações fascistas e comunidade de imigrantes. Pode-se perceber que os americanos monitoravam cuidadosamente esses movimentos e desenvolviam diplomacia e guerra de informações para que o Brasil fosse incorporado ao "quintal" americano.
O significado histórico deste relatório
O significado histórico desse documento é que se trata de uma fonte primária que mostra como o Brasil do período da Segunda Guerra Mundial era geopoliticamente importante e estava em um equilíbrio frágil. O controle do Atlântico Sul era decisivo para os Estados Unidos, e o Nordeste brasileiro (Natal e Recife) era um ponto estratégico da rota de suprimentos que conectava os fronts africano e europeu.
O alcance das aeronaves da época era curto e não havia capacidade de voar diretamente da América do Norte através do Atlântico para a Europa. Por isso, o Atlântico Sul, onde a distância entre continentes é menor, era a rota logística mais importante para os Estados Unidos enviarem tropas ao front europeu. Portanto, os americanos viam como uma ameaça o Brasil se aproximar do Eixo e tentavam entender minuciosamente a realidade das facções pró-alemãs na política, segurança, propaganda e militares.
Esse documento descreve claramente o movimento fascista brasileiro (integralistas) e a influência da sociedade imigrante alemã, mostrando que a América do Sul não era simplesmente uma "retaguarda", mas um espaço de competição onde se enfrentavam a penetração das potências do Eixo e o campo democrático (Estados Unidos). O governo brasileiro (regime do Estado Novo) era autoritário e havia uma mistura de fortes sentimentos anti-americanos e nacionalismo próprio no país, por isso os Estados Unidos se preocupavam com o lado a qual a postura política do Brasil se inclinaria.
Esse material revela a realidade das atividades diplomáticas e de espionagem em tempo de guerra. Pode-se dizer que o protótipo da política da CIA para a América Latina durante a Guerra Fria já estava sendo formado.
Comunidade de imigrantes alemães incorporada ao movimento nazista
O movimento fascista brasileiro, a Ação Integralista Brasileira (AIB), esteve conectado de forma multidimensional com a comunidade de imigrantes alemães durante os anos 1930 e o período da Segunda Guerra Mundial. Embora ambos não tenham estabelecido uma aliança formal, aproximaram-se fortemente através de três eixos: afinidade ideológica, intercâmbio pessoal e convergência de interesses políticos.
Primeiro, a afinidade ideológica. Os integralistas eram o fascismo brasileiro, com anticomunismo intenso, supremacia estatal, culto ao líder e unidade étnica como ideologias centrais. Isso ressoava facilmente com o pensamento nazista e, especialmente nos pontos "anticomunista" e "antiliberal", geraram uma relação natural de cooperação com as camadas pró-nazistas da comunidade imigrante alemã. Nas regiões de imigrantes alemães no sul do Brasil, o Partido Nazista no exterior (NSDAP/AO) já atuava desde os anos 1930, e o ambiente nacionalista que se espalhou ali facilitou a aceitação dos integralistas.
Segundo, o intercâmbio pessoal e contato organizacional. Escolas alemãs, associações, clubes esportivos, vereine (associações culturais) etc. já possuíam alta capacidade organizacional, por isso os integralistas tentaram usar essa rede para mobilização política. Por outro lado, para a comunidade de imigrantes alemães também, os integralistas se tornaram um canal para exercer influência dentro do governo brasileiro. Então os interesses mútuos coincidiram.
Como consta no documento, funcionários policiais e militares pró-alemães mantinham contato com integralistas e também relações com consulados alemães e organizações nazistas, conforme relatado pela inteligência americana. Isso significa que se formou uma "relação triangular" entre comunidade de imigrantes alemães-integralistas-facção pró-Alemanha dentro do governo.
Terceiro, a dinâmica política em tempo de guerra. O regime do Estado Novo brasileiro (1937-45) inicialmente tinha elementos fascistas e defendia o anticomunismo, por isso havia uma base comum com integralistas e facções pró-alemãs. Com isso, a comunidade de imigrantes alemães obtinha proteção política mais facilmente e mantinha influência indireta através dos integralistas. Especialmente nas cidades do sul, reuniões e atividades culturais de apoiadores nazistas se sobrepunham com a direita brasileira, incluindo líderes integralistas.
O movimento integralista se conectou com as camadas pró-nazistas da comunidade de imigrantes alemães através de ideologias como fascismo brasileiro, construindo uma relação que se fortalecia mutuamente através de redes pessoais e convergência de interesses políticos. Essa união se tornou uma grande preocupação quando os Estados Unidos tentaram separar o Brasil do Eixo, influenciando as políticas diplomáticas e de segurança durante a guerra.
Vargas inicialmente equilibrou entre Eixo e Aliados
O regime ditatorial de Vargas do final dos anos 1930 a 1941 tinha muitos pontos em comum com o fascismo europeu, como controle estatal autoritário, anticomunismo, culto de personalidade, fortalecimento de órgãos de propaganda, e no país havia forte influência de integralistas (fascistas brasileiros) e facções pró-nazistas da comunidade de imigrantes alemães. Por isso, Vargas diplomaticamente não esclareceu o lado para que e adotou uma estratégia diplomática de fazer Alemanha, Itália e Estados Unidos competirem para obter o máximo benefício.
A "cenoura diplomática nº 1" usada pelos Estados Unidos foi a construção de um complexo siderúrgico (Usina Siderúrgica de Volta Redonda), que foi a estratégia de atração mais simbólica. O Brasil desejava fortemente uma "empresa siderúrgica estatal", que era essencial para a industrialização. Os Estados Unidos ofereceram financiamento de US$ 100 milhões e apoio tecnológico, em troca atraindo o Brasil para o lado dos Aliados.
A "cenoura nº 2" foi a "compra estratégica" de produtos brasileiros pelos Estados Unidos. Os americanos compraram em grandes quantidades não apenas café, mas também produtos agrícolas como borracha, algodão e cravo para sustentar a economia brasileira. Especialmente, políticas que visavam prevenir a queda dos preços do café e estabilizar a receita de divisas da economia brasileira foram implementadas, sendo entendidas pelo lado brasileiro como apoio americano que representava a tábua de salvação econômica. Essa política americana continua viva até hoje.
A "cenoura nº 3" foi o fornecimento de material militar e construção de bases. Como fornecimento de armas, houve a modernização da Força Aérea Brasileira e o estabelecimento de tropas americanas na base do Nordeste (Natal). Como resultado, em 1942, o Brasil declarou guerra às potências do Eixo. O ataque de submarinos alemães a navios brasileiros também serviu como catalisador, e finalmente entrou na guerra do lado dos Aliados. A indução econômica e militar americana desempenhou um papel decisivo.
Diferenças entre as comunidades japonesa, alemã e italiana em tempo de guerra
No Brasil durante a guerra, as comunidades de imigrantes eram vistas como "riscos diplomáticos potenciais". Após o início da guerra, surgiu uma situação em que imigrantes das potências do Eixo = súditos inimigos (potencialmente extensões de países inimigos) eram tratados como tal. Entre elas, as três comunidades japonesa, alemã e italiana eram especialmente alvos de vigilância política, mas havia grandes diferenças na influência de cada uma.
A maior preocupação do governo brasileiro era a comunidade de imigrantes alemães. Tinha um longo histórico de assentamento desde o século XIX, chegando a um milhão de pessoas, mostrando presença avassaladora nos estados do sul. Havia uma sociedade com alta autonomia, com alto nível educacional, escolas, jornais e associações.
Ali, desde os anos 1930, o Partido Nazista no exterior (NSDAP/AO) penetrava ativamente, desenvolvendo movimentos pró-nazistas através de escolas, grupos jovens, clubes esportivos etc. O governo brasileiro chegou a se preocupar com a existência de "enclaves nazistas no país". Por isso, os alemães eram politicamente "a comunidade de imigrantes mais influente e mais vigiada". Embora os imigrantes japoneses também tenham sido perseguidos pelas autoridades brasileiras, as políticas de isolamento para os alemães foram particularmente severas, sofrendo ainda mais que os nipo-brasileiros.
A comunidade de imigrantes italianos formou o maior grupo imigrante do Brasil, estabelecendo-se amplamente como trabalhadores agrícolas e urbanos centrados no estado de São Paulo. As camadas sociais eram diversas, espalhando-se tanto nas camadas superiores quanto inferiores. Nos anos 1920-30, o regime de Mussolini desenvolveu ativamente uma "política para italianos no exterior", espalhando influência fascista através de associações culturais, escolas Dante Alighieri etc. No entanto, como Portugal e Itália são culturalmente próximos, a assimilação social progrediu facilmente, não formando um bloco étnico coeso como os alemães ou japoneses.
Durante a guerra, quando a vitória dos Aliados começou a se tornar visível, o ambiente italiano rapidamente se desfascistizou. Embora houvesse vigilância do governo, não era direcionada tanta suspeita quanto aos alemães. Era uma comunidade de imigrantes que tinha influência cultural do fascismo, mas fraca capacidade de organização política.
Em contraste, a comunidade de imigrantes japoneses cresceu rapidamente, mas era vista como tendo "extremamente heterogêneo". Nos anos 1930, formou grandes comunidades agrícolas imigrantes em várias regiões. Concentrava-se nas áreas rurais do estado de São Paulo, com forte singularidade em língua, cultura e educação. Era reconhecida pela sociedade brasileira como o grupo com maior "caráter estrangeiro".
Os imigrantes japoneses tinham forte nacionalismo e também mantinham consciência imperial, por isso eram suspeitos de que "a influência do governo japonês seria forte", e o governo brasileiro tentou primeiro fechar jornais e escolas japonesas. Após Pearl Harbor, tornaram-se alvo da vigilância mais rigorosa, transformando-se na comunidade de imigrantes mais facilmente excluída racial e culturalmente.
Dentro desta grande estrutura geopolítica, foi realizada a perseguição aos imigrantes japoneses, e tensão excessiva provocou a contenda entre kachigumi e makegumi. Como a "Lista de Nacionais de Países Especificamente Bloqueados" apresentada anteriormente, atrás do governo brasileiro estava o governo americano, e as perseguições também foram realizadas sob sua coleta de informações e instruções. Não seria nenhuma surpresa se os Estados Unidos estivessem por trás da remoção forçada de Santos. Gostaria muito que os pesquisadores esclarecessem isso. (Masayuki Fukasawa)









