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"Organização militar secreta japonesa nos arredores de São Paulo"; Durante a guerra, espionagem americana instigou medo no Brasil?! Relatórios sobre kachigumi e imprensa nipo-brasileira 《Coluna do repórter》

25/11/2025

Site da Biblioteca Nacional (www.ndl.go.jp/brasil/data/R/G006/G006-NARA0001r.html)
Site da Biblioteca Nacional da Dieta (www.ndl.go.jp/brasil/data/R/G006/G006-NARA0001r.html)

"Organização militar secreta japonesa tem capacidade de assumir o controle da cidade de São Paulo em 30 minutos"


O site da Biblioteca Nacional, na página 100 Anos da Imigração para o Brasil, traz um documento de guerra de março de 1942. «Relatório do chefe da divisão de inteligência do Estado-Maior do Departamento do Exército americano. Como informação confiável, existe uma organização militar secreta de mais de 25 mil japoneses nas proximidades da cidade de São Paulo»(1) é o conteúdo.

Segundo o documento, "De acordo com fontes confiáveis, os japoneses mantêm no Brasil uma organização militar completa administrada por oficiais japoneses. Entre esses oficiais estão alguns generais que foram enviados do Japão para o Brasil com o propósito específico de comandar essa organização. Uma parte da organização localizada nas proximidades da cidade de São Paulo conta com mais de 25.000 membros. Essa filial da referida organização tem a capacidade de controlar a cidade de São Paulo em 30 minutos. Estrategicamente, há indícios de que organizações japonesas similares estão posicionadas no interior, e sua principal missão seria impedir a chegada de reforços a muitas bases. Isso porque os japoneses já adquiriram várias fortalezas que controlam terras através das quais passam tanto o abastecimento de água quanto as linhas de transmissão elétrica que foram construídas para a defesa do porto de Santos, nas fortalezas brasileiras de Itaipu em São Vicente e Monduba em Guarujá, comprando ou arrendando os direitos de administração patrimonial de pontos estratégicos que controlam as principais ferrovias. A maior fábrica de explosivos da América do Sul perto de São Miguel, a fábrica da General Motors em São Caetano que produz tanques e veículos blindados, os reservatórios e represas da Light and Power Company no Alto da Serra estão cercados por proprietários de terras japoneses, e diz-se que essas instalações serão explodidas quando a ordem for dada pelos poderosos japoneses"(2)

Esse documento absurdo é um memorando ultra-secreto legítimo da Divisão de Inteligência Militar (G-2) do Departamento do Exército americano (War Department) datado de 12 de março de 1942.


Documento sigiloso de agência de espionagem do exército americano que instiga o medo


É um documento com conteúdo completamente diferente da realidade e totalmente impossível. Mas, a partir de abril do mês seguinte, de fato, em São Paulo passou a aumentar visivelmente o número de japoneses detidos pela polícia sob suspeita de espionagem.

Para levar donativos aos imigrantes compatriotas detidos, a partir de junho foi criada a Nihonjin Kyusaikai por japoneses católicos de São Paulo, tendo como presidente a senhora Margarida Watanabe. Essa organização mudou o nome para Kyusaikai (Assistência Social Dom José Gaspar) no pós-guerra e fundou o lar de idosos Ikoi no Sono, que continua até hoje.

A afirmação de que "uma parte desta organização localizada nas proximidades da cidade de São Paulo conta com mais de 25.000 membros" mostra a possibilidade de que estavam vendo as comunidades nikkeis como Cocuera em Mogi e Fukuhakumura em Suzano como organizações militares.

É inegável que "ex-oficiais militares" como o coronel aposentado do exército Kitsukawa Junji e o tenente-coronel aposentado do exército Jinsaku Wakiyama realmente vieram para o Brasil como imigrantes agrícolas. Embora não se possa negar que isso teve relação com as organizações pós-guerra dos "kachigumi", treinamento militar era algo impossível.

Durante a guerra e o pós-guerra, aumentou o número de japoneses que vieram do interior para a cidade de São Paulo com o negócio de tinturaria para dar educação superior aos filhos. Imigrantes que sofreram com doenças endêmicas comuns na região Noroeste também começaram fazendas de vegetais e avicultura nas proximidades da cidade de São Paulo em busca de locais saudáveis, seguindo as recomendações do Dr. Sentaro Takaoka do Dojinkai (associação beneficente). As agências de espionagem americanas transmitiram interpretações errôneas ao governo brasileiro como se fosse um movimento de organização militar, e só se pode pensar que intencionalmente instigavam o medo.

Além disso, dizer que "a organização militar secreta japonesa tem capacidade de controlar a cidade de São Paulo em 30 minutos" está fora do normal.

Propaganda brasileira anunciando a declaração de guerra contra os países do Eixo (Clbgonçalves, Public domain, via Wikimedia Commons)
Propaganda brasileira anunciando a declaração de guerra contra os países do Eixo (Clbgonçalves, Public domain, via Wikimedia Commons)

Agências de espionagem americanas incutem medo no governo brasileiro


"A perseguição aos imigrantes japoneses no Brasil está relacionada aos documentos das agências de espionagem americanas" é uma realidade assustadora.

Olhando retrospectivamente a história da guerra e do pós-guerra, pode-se perceber a possibilidade de que a Divisão de Inteligência do Departamento do Exército americano transmitia informações que exageravam o medo de que "os imigrantes japoneses são perigosos" ao regime ditatorial de Vargas da época, como consta no referido documento, e o governo brasileiro acreditava que isso era verdade.

Os Estados Unidos desenvolviam uma guerra de informação para exercer pressão sobre o regime Vargas para participar mais ativamente do lado dos Aliados, como enviando mais tropas para o front europeu, e ao mesmo tempo suprimir e perseguir mais os imigrantes dos países do Eixo no território nacional.

Seguindo o fluxo anterior e posterior ao referido documento, fica mais clara a posição histórica desse documento.

Como escrito no artigo de 11 de novembro deste jornal "O protótipo da 'guerra econômica' geopolítica; A 'lista de estrangeiros bloqueados' em tempos de guerra; Pontos em comum entre Roosevelt e Trump 《Coluna do Repórter》"(3), como se prevendo que haveria um ataque preventivo das forças militares japonesas, o Departamento de Estado americano publicou em 17 de julho de 1941 a primeira edição da lista de estrangeiros bloqueados (The Proclaimed List of Certain Blocked Nationals) como política de hostilidade aos imigrantes japoneses na América do Sul. Essa política pode ser considerada uma extensão do "Cerco ABCD", cerco econômico ao Japão pelos países americano, britânico, holandês e chinês através de regulamentações e proibições de exportação de materiais estratégicos como petróleo e sucata de ferro realizadas desde o final da década de 1930 para se opor à expansão ultramarina e conflitos do Grande Império do Japão.

Ao mesmo tempo em que provocavam economicamente para que o lado japonês iniciasse a guerra, após o início da guerra identificavam elementos perigosos, suspeitavam da ameaça militar dos imigrantes japoneses no Brasil, e os Estados Unidos intensificavam a vigilância e o alerta.

De fato, em 8 de dezembro de 41, as forças japonesas realizaram o ataque a Pearl Harbor, iniciando a Guerra do Pacífico. Dez dias depois, em 18 de dezembro, já estava sobre a mesa do presidente Roosevelt um relatório sobre movimentos anti-governamentais, incluindo imigrantes alemães no Brasil, altos funcionários dentro do governo Vargas, órgãos de segurança, movimentos das forças armadas e atividades de organizações de apoio nazista no país.(4)

Para evitar que o Brasil ficasse do lado dos países do Eixo, sob liderança dos Estados Unidos foi realizada a Terceira Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores a partir de 15 de janeiro de 1942, na qual 10 países sul-americanos, exceto a Argentina, decidiram o embargo econômico aos países do Eixo. O governo brasileiro também declarou o rompimento das relações diplomáticas com os países do Eixo em 29 de janeiro. Mas nesta fase ainda não havia declaração de guerra, o Japão não era um "país inimigo". Para instigar o medo do Brasil e encorajá-lo a participar da guerra, esse documento foi emitido em 12 de março.

Em fevereiro de 1942, começou o confinamento forçado de nikkeis no território americano. Da mesma forma, em janeiro começou a deportação forçada de imigrantes japoneses e líderes nikkeis do Peru para os Estados Unidos. Um total de 1800 a 2200 foram enviados para campos de concentração no território americano, sendo o Peru o único país da América Latina a implementar efetivamente o confinamento no exterior (território americano).

O Aeroporto Internacional de Fortaleza era uma base da força aérea também usada pelo exército americano e forças aliadas durante a guerra (Alexandro Dias, via Wikimedia Commons)
O Aeroporto Internacional de Fortaleza era uma base da força aérea também usada pelo exército americano e forças aliadas durante a guerra (Alexandro Dias, via Wikimedia Commons)

Fluxo que leva ao despejo forçado de Santos


Ao mesmo tempo, o governo americano pressionava o Brasil a "vigiar os nikkeis". Como o Brasil ainda estava meio neutro na época, os Estados Unidos usaram o referido documento para promover o posicionamento pró-americano e a participação na guerra com o motivo de "possibilidade de rebelião dos nikkeis".

De fato, em fevereiro de 1942, foi emitida a primeira ordem de despejo de japoneses no bairro da rua Conde de Sarzedas, em São Paulo, que era um bairro japonês desde antes da guerra, por razões de segurança pública.

A Alemanha nazista, irritada com o Brasil ter ficado do lado dos Aliados, começou por volta de fevereiro de 1942 a atacar navios mercantes transportando do Brasil para os Estados Unidos com submarinos no Atlântico. Sob o pretexto de reparação por isso, o governo brasileiro emitiu uma ordem de congelamento de bens de países inimigos dentro do Brasil baseada na lista de estrangeiros bloqueados dos Estados Unidos, os bens dos imigrantes dos países do Eixo foram confiscados, inspetores foram nomeados para empresas etc. e o governo passou a administrá-las.

A partir de março começou a detenção de líderes da sociedade japonesa, em julho diplomatas japoneses, residentes e jornalistas retornaram ao Japão em massa em navio. Em agosto, 5 navios brasileiros foram afundados ao largo de Natal, começaram os incêndios de lojas de imigrantes japoneses em Belém e Fortaleza entre outros lugares, e o governo do Pará decidiu isolar e confinar os imigrantes japoneses na colônia de Tomé-Açu também para vigilância.

21 submarinos alemães e 2 submarinos italianos afundaram 36 navios mercantes brasileiros, causando 1074 mortes. Neste contexto, em 22 de agosto de 42, o governo brasileiro declarou guerra à Alemanha e Itália, decidiu enviar a Força Expedicionária Brasileira (FAB) para o front europeu, seguindo completamente a direção induzida pelos Estados Unidos. Em setembro foi emitida a segunda ordem de despejo para o bairro da Conde em São Paulo, e o bairro japonês desapareceu completamente.

No mesmo ano, os Estados Unidos ofereceram incentivos econômicos ao Brasil e ao mesmo tempo exerceram pressão diplomática, estabelecendo bases aeronavais na costa nordeste brasileira. A base mais importante estava localizada na cidade de Parnamirim, perto de Natal, capital do Rio Grande do Norte, que era chamada de "trampolim da vitória" (para voar para a África). Como consta no site(5), a base de Fortaleza no nordeste brasileiro também foi intensamente operada a partir de 1942 como base de apoio aéreo da Força Aérea americana, com aviões militares americanos voando pela rota da África.

E em julho de 1943 ocorreu o incidente que se tornou o pico da perseguição aos imigrantes japoneses durante a guerra: o despejo forçado de 6500 imigrantes japoneses de Santos em 24 horas.

A partir desse fluxo de acontecimentos, é inegável que a perseguição aos imigrantes se intensificou porque os Estados Unidos exageraram a ameaça dos imigrantes japoneses além da realidade para encorajar o Brasil a participar da guerra do lado dos Aliados.

Documento da CIA
Documento da CIA

História da imigração japonesa como parte da história mundial


O site de divulgação de documentos históricos da CIA(6) também tinha um relatório sobre os kachigumi do pós-guerra em Londrina. O documento da CIA "TOKOTAI, JAPANESE TERRORIST ORGANIZATION IN BRAZIL". Segundo ele, "Tokotai [Tokkotai, facção linha-dura das organizações kachigumi] está espalhando propaganda de que o Japão não perdeu a guerra ou que o General MacArthur está prisioneiro no Japão" entre outros conteúdos, mostrando que ainda estavam sendo vigiados em novembro de 1948, quando o Japão estava sob administração das forças aliadas. "Segundo a polícia, o Tokkotai tem cerca de 300 membros armados no Brasil" entre outros conteúdos que instigam o medo longe da realidade, assim como no documento inicial.

Esse relatório da CIA posicionava-os como "grupo terrorista político com fanatismo religioso", relatando que os líderes centrais dos vencedores defendiam ideologias anti-americanas e anti-aliadas. As autoridades brasileiras realmente consideraram isso uma ameaça à segurança pública, realizaram uma grande repressão aos dirigentes do kachigumi entre 1946-47, cerca de 1000 pessoas foram presas, das quais cerca de 170 foram enviadas para a prisão da Ilha Anchieta. Há vários relatos de que cônsules americanos acompanharam os interrogatórios na Polícia Política (DOPS) etc.

Por outro lado, em outro relatório da CIA elaborado em 1948, analisavam a tendência política e fontes de financiamento de jornais da cidade de São Paulo, incluindo jornais em língua estrangeira como o Paulista Shimbun na lista. Isso mostra que a sociedade de imigrantes japoneses da época formava sua própria esfera de informação dentro do Brasil, e que a dinâmica da comunidade imigrante era uma presença política que não podia ser ignorada. A CIA tentou compreender o conteúdo dos jornais em japonês porque reconhecia a magnitude do papel que a imprensa em japonês desempenhava na formação da opinião pública.

O relatório tratou o Paulista Shimbun como um dos meios de comunicação representativos da sociedade japonesa, registrando sua neutralidade política, base de gestão e influência na opinião pública como parte dos jornais em língua estrangeira. Mas na época havia outros órgãos de imprensa que deveriam ser mais vigiados por serem favoráveis ao kachigumi, como Brasil Jiho e Showa Shinbun. Então é estranho que o Paulista Shimbun, que era mais favorável aos que reconheciam a derrota, tenha aparecido no relatório. Isso sugere a possibilidade de que havia informantes que se tornaram fonte de informação sobre o interior da sociedade nikkei.

Os informantes que passavam informações para os Estados Unidos eram principalmente "nisseis bilíngues e intérpretes que tinham relação com o DOPS e outras autoridades brasileiras", "relacionados ao cristianismo", "relacionados à educação pública brasileira", "brasileiros locais (administrativos e policiais)" e "fornecedores de informações de testemunhas oculares de outros grupos de imigrantes". Na sociedade nikkei, sempre houve existências como "descendentes de comunidades discriminadas" que sofriam ostracismo, e essa possibilidade não pode ser negada. Inúmeros motivos, como autopreservação (negociação com a polícia, tentativas de obter anistia ou proteção fornecendo informações), podem ser imaginados.

Não pretendo procurar espiões aqui. Mas as agências de espionagem americanas possivelmente ainda estão vigiando. A história da imigração japonesa no Brasil não é reconhecida como "parte da história japonesa", como não está descrita nos livros didáticos de história do Japão. Mas, se aparece em documentos da CIA, certamente é "parte da história mundial". (Masayuki Fukasawa)

(1) www.ndl.go.jp/brasil/data/R/G006/G006-NARA0001r.html

(2) https://www.ndl.go.jp/brasil/text/t084.html

(3) brasilnippou.com/ja/articles/251111-column

(4) brasilnippou.com/ja/articles/251118-column

(5) tokdehistoria.com.br/2022/09/27/1944-the-tragedy-of-the-b-24-in-fortaleza-brazil/

(6) https://www.cia.gov/library/readingroom/home


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