Resenha: A história dos japoneses em terra instável; “Sangue Pardo - Mapa da Errância (2ª Parte)” (tradução livre)
Imigração é, ao mesmo tempo, diáspora e a bênção de possuir múltiplas pátrias. No entanto, no coração daqueles que vivem neste "entre-lugar", sempre tremulam as sombras do pertencimento e da ruptura. O livro digital "Sangue Pardo - Mapa da Errância (2ª Parte)" (Ryo Asano, título em tradução livre, https://amzn.asia/d/6tlTgv4), publicado online em 14 de novembro, retrata essa oscilação de forma meticulosa através da perspectiva dos imigrantes nipo-brasileiros enraizados na terra brasileira.
Esse livro é a continuação da resenha publicada no final de agosto “Ryo Asano: ‘Sangue Pardo - Amor Turvo (1ª Parte)’; Uma jornada para explorar o ponto crítico do coração japonês (1)” (brasilnippou.com/pt/articles/250829-22colonia). A narrativa se desenvolve tendo como eixo os dias em que o protagonista Kodama se transfere do Paulista Shimbun para a redação da Século, lutando para se estabelecer como jornalista independente. Conflitos e ciúmes que surgem dentro da sociedade imigrante, a ansiedade da vida causada pelos atrasos na entrega do jornal, a "japonesidade" que oscila em uma sociedade em processo de nacionalização — o leitor tem a sensação de estar lendo, simultaneamente, uma história de amadurecimento de um jovem e a própria história da imigração nipo-brasileira.
Particularmente impressionante é a passagem em que o protagonista cobre o entusiasmo das celebrações do 70º aniversário da imigração (1978) e testemunha com seus próprios olhos o momento em que a sociedade nikkei dá o passo em direção a uma identidade única como "Nipo-Brasileiros". A visita do Príncipe Herdeiro e sua esposa, o longo discurso do Presidente Geisel. Em meio ao ambiente onde o Brasil se orgulha de ser uma "nação de imigrantes", o protagonista aceita pela primeira vez de forma positiva a dualidade de "ser descendente de japoneses e, ao mesmo tempo, brasileiro".
À medida que o leitor avança nesse capítulo, certamente sentirá em seu peito a profundidade acolhedora do Brasil como nação multiétnica, cultivada ao longo de muito tempo.
Por outro lado, a cena em que Marina, a esposa que conheceu no Brasil, pisa em solo japonês e expressa o estranhamento de "haver apenas japoneses" é uma obra-prima como literatura de imigração. Para ela, que cresceu envolvida pela diversidade no Brasil, a "homogeneidade" da sociedade japonesa surge mais como algo sinistro do que como gentileza. Essa inversão de perspectiva certamente será nova também para os leitores japoneses. As palavras de Marina, "o Brasil é o pai que me criou, o Japão é o pai que me deu à luz", são uma frase magistral que mergulha profundamente no silêncio as emoções complexas de uma família que vive além das fronteiras.
O que permeia a narrativa é a imagem de pessoas que, mesmo se nacionalizando, não conseguem abandonar o Japão. Na parte final, quando Kodama retorna ao país levando consigo a experiência de reportagem no Brasil e começa novamente a buscar seu lugar, há uma força que questiona não apenas o modo de vida dos imigrantes de segunda e terceira gerações, mas também "o que é o Japão" e "quem são os japoneses" ao próprio leitor.
O charme desse livro está no fato de que, tendo os fatos históricos como estrutura, grava em vários pontos a respiração humana. Não se limitando à descrição de uma revista de imigração, por meio da descrição cuidadosa dos detalhes da vida — o jornal abalado pelos atrasos na entrega, os materiais do kachigumi adormecidos no depósito, ou o feixe de linhas de bordado herdado como lembrança dos avós — o leitor pode compreender a trajetória dos imigrantes como "vida" e não como "fatos históricos".
Como indica o subtítulo, o livro é uma história de errância. No entanto esse vaguear está mais próxima de uma busca do que de uma perda de rumo. O que significa viver entre dois países? O que a cor do sangue conta? São questões ativas sobre onde sentir-se em casa e para onde retornar.
Essa obra, que retrata de frente os conflitos nascidos no espaço entre duas culturas, Japão e Brasil, transcende os limites da literatura de imigração e desperta em cada um de nós, leitores, um questionamento silencioso sobre nosso "lugar de retorno", pátria e "o que é o lugar ao qual pertencemos".
Ao terminar a leitura, o que se espalha no peito não é de forma alguma sentimentalismo. Pelo contrário, é uma reverberação límpida que nos faz pensar "quero reexaminar minhas raízes" e "quero acompanhar mais um capítulo da história deles".
É um livro que recomendo não apenas para pessoas interessadas na história da imigração brasileira, mas para todas as pessoas que vivem na sociedade internacional globalizada de hoje. Uma amostra do livro (o primeiro capítulo) está disponível para leitura aqui (www.gentosha.jp/article/28291/). (Repórter Masayuki Fukasawa)









