30 anos de falecimento da "Mãe dos imigrantes japoneses"; Dona Margarida, rumo à canonização, deixa legado de amor que superou as chamas da guerra 《Coluna do Editor-Chefe》
Cantos de oração ecoam na Igreja de São Gonçalo
Na manhã de 15 de março, foi celebrada uma missa em memória dos 30 anos da morte de Dona Margarida (Margarida Tomy Watanabe), a "Mãe dos Imigrantes Japoneses", na Igreja de São Gonçalo, no Centro de São Paulo. No retrato exposto na mesa, ela mantinha, por trás de seus óculos característicos, o mesmo olhar sereno de sempre, porém forte, como se abraçasse tudo ao seu redor.
O padre Kiyoharu Ojima falou suavemente: "Devemos agradecer pela vida e pelo trabalho de Margarida. Durante a Segunda Guerra Mundial, os imigrantes japoneses foram oprimidos como nacionais inimigos, não sabiam português, e, sem ela intervindo para ajudá-los, a situação teria se tornado mais trágica. Agora que há guerra no Oriente Médio, torna-se ainda mais importante recordar sua forma de viver, dedicando-se corajosamente às atividades de socorro como mulher. Sua contribuição não se limitou apenas à comunidade nikkei, mas beneficiou todo o Brasil. Isso é a própria essência do trabalho religioso".
A melodia do hino japonês "Itsukushimi fukaki" ecoou por todos os cantos da igreja, junto com as vozes trêmulas de aproximadamente 80 nikkeis reunidos. Essa cena transcendeu uma simples homenagem a uma pioneira, prenunciando fortemente que se tratava de um ponto de virada em que a "história sagrada" dava um passo em direção a uma nova dimensão.
Agora se tenta reconectar os passos da pequena mulher que outrora plantou sementes de compaixão no solo do Brasil, ligando-as ao brilho da história mundial. Esse movimento silencioso, porém certeiro, anunciou um novo começo a partir dessa igreja.
A "Gigante da Caridade" que iluminou as trevas da guerra e discriminação
Revisitar o caminho de Dona Margarida é nada menos que desvendar as memórias de "sofrimento e superação" na história moderna do Brasil. Em 1942, quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, os imigrantes japoneses foram colocados em situação severa como "nacionais inimigos". Os principais ativos de fazendas e empresas nikkeis foram congelados, o uso do japonês em público foi proibido, e líderes da comunidade nikkei foram sucessivamente detidos pela polícia política (DOPS). Em meio ao desespero que lançava suas sombras, sua dedicação foi uma questão de vida ou morte.
Em 13 de maio de 1942, ela entregou 80 suéteres para compatriotas detidos no campo de concentração de imigrantes, em nome da "Sociedade Católica de Socorro aos Japoneses de São Paulo". Numa época em que nem mesmo reuniões eram permitidas, isso exigia perspicácia e coragem para burlar a vigilância das autoridades. Por trás disso, havia também consequências terríveis.
Certa vez, ela foi convocada pelo DOPS e submetida a interrogatório persistente por 5 horas, permanecendo em pé. "De onde veio esse dinheiro?" Exposta continuamente a vozes intimidadoras, após ser liberada, estava tão exausta que não conseguia nem mesmo caminhar por conta própria. Há uma anedota de que ela não conseguia subir as escadas de casa e foi carregada pelo marido Gihei, o que mostra como seu "amor ao próximo" era algo palpável, acompanhado de sofrimento físico.
Particularmente notável foi o Incidente de Expulsão Forçada de Santos em julho de 1943. Para os cerca de 6.500 imigrantes japoneses que foram expulsos de suas residências em apenas 24 horas, ela providenciou alimentos e roupas sem dormir por uma semana inteira. Essa atividade foi apoiada pelo Arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar. O arcebispo protegeu a atividade sob o nome da igreja, dizendo: "Mesmo que a Associação de Senhoras Católicas se recuse, eu pessoalmente assumirei", e até permitiu o uso de uma conta para receber remessas do Vaticano.
Além disso, o Dr. Celestino Bourroul, que era seu médico particular, tocado pela dedicação dela que servia em sua casa, apoiou essa atividade do ponto de vista médico, oferecendo consultas gratuitas e medicamentos aos imigrantes. Os resultados de socorro da referida sociedade atingiram impressionantes 61.403 pessoas até 1967. Órfãos, doentes, pacientes com tuberculose e idosos sem lugar para ir. Suas ações foram uma vitória do "humanitarismo cristão universal" que transcendeu a simples compaixão pelos compatriotas e moveu até mesmo a Igreja Católica da época.
A caridade que ela demonstrou fincou raízes profundas na terra do Brasil como uma luz certeira que iluminou as trevas do xenofobismo.
A alma da pobreza voluntária que vive no "Jardim do Descanso"
A paixão dela cristalizou-se como "lar final" no lar de idosos Jardim de Repouso São Francisco, criado em 1958. Esse jardim, que começou com o desejo de que "os pioneiros tenham um lugar para descansar no final da vida", continua existindo ainda hoje como a consciência do bem-estar brasileiro. Dona Margarida era uma mulher pequena com menos de 150 centímetros de altura, mas, mesmo depois de se aposentar aos 90 anos, ela própria ingressou neste jardim e viveu com outras pessoas como uma simples residente.
Esse espírito de "pobreza voluntária" e "serviço" foi transmitido aos sucessores de forma surpreendente. A nissei Sonoko Yoshiyasu, que serviu como diretora executiva, deixou uma herança surpreendente para a sociedade de socorro pouco antes de morrer em 2022. Ela doou integralmente R$ 970.000 (aproximadamente 29 milhões de ienes) que havia economizado ao longo da vida com seu salário não muito alto.
Essa doação gigantesca, economizada centavo por centavo ao sacrificar sua própria vida sem desperdiçar nada, foi o próprio "bastão do amor" que Sonoko recebeu de Dona Margarida.
Na confraternização após a missa, o presidente Izumi Honda da sociedade de socorro que administra o Ikoi no sono disse que atualmente o estabelecimento está passando por crise econômica turbulentas, sendo forçado a uma administração extremamente difícil, atendendo 70 residentes com 110 funcionários. O número de pessoas na lista de espera para ingresso chega a 213, e os pedidos de ajuda não cessam.
No entanto o presidente Honda refletiu emocionado: "Toda vez que os fundos se esgotam e caímos em situação desesperadora, de algum lugar aparecem grandes doações e ajuda. É como uma ajuda misteriosa do céu. Sinto que isso é prova de que, além dos milagres visíveis, a alma de Dona Margarida ainda protege calorosamente o teto deste jardim".
Na era moderna dominada pelo materialismo, o espírito dela, que manteve ao longo da vida um modo de viver de "não possuir nada mas dar tudo", está sendo reavaliado como orientação ética para toda a sociedade brasileira, transcendendo o quadro da comunidade nikkei. As mãos dela, que nada possuíam, tornaram-se agora uma força gigantesca invisível, começando a mover as enormes engrenagens da Igreja Católica.
O longo caminho para a canonização e a paixão reacendida
O movimento para reconhecer oficialmente Dona Margarida como "santa" nasceu há mais de 10 anos, através dos esforços de Mario Jun Okuhara, baseado na proposta do renomado jurista Ives Gandra Martins. Ele foi colega de escola do filho dela, Mario, e foi uma das pessoas que conheceu seu caráter virtuoso desde os tempos de estudante.
Martins, desde quando fez a proposta, afirmou categoricamente que "as atividades de Dona Margarida são parte da história moderna do Brasil e merecem canonização", e continuou defendendo seu valor histórico do ponto de vista de um jurista.
Okuhara colocou a mão no peito durante a confraternização e disse: "Hoje é um dia muito importante, um dia para celebrar a vida e as realizações de Dona Margarida, e ela ainda vive em cada um de nós que estamos aqui."
Ele continuou: "Ela foi uma figura muito importante durante a Segunda Guerra Mundial, ajudando pessoas expulsas de Santos e perseguidas pela repressão da época. Também apoiou órfãos, idosos e pacientes com tuberculose, posteriormente estabeleceu a Seibo Fujinkai (associação de senhoras) e criou o Ikoi no sono, que continua até hoje. Tais atividades dela estavam enraizadas em fé profunda e espiritualidade compassiva. O fato de que essas atividades de caridade continuam existindo através dos sucessores que estão aqui pode ser considerado como prova disso".
Um poderoso aliado se juntou ao comitê que promove a candidatura à canonização, estabelecido por ocasião dos 20 anos de sua morte. Foi a "especialista" Irmã Célia Cadorin (falecida), que já havia conseguido duas canonizações. Ela foi a pessoa que liderou as candidaturas de Frei Galvão e Madre Paulina, primeiro santo e santa do Brasil, e na época deu um forte apoio, dizendo que Dona Margarida "tinha possibilidade suficiente".
Recentemente, esse movimento entrou em uma nova fase. Okuhara relatou com alegria que, em reunião na Diocese de Guarulhos, o bispo diocesano sinalizou positivamente para a candidatura à canonização.
Isso significa que o entusiasmo da comunidade local, através de campanhas de assinaturas e coleta de materiais, finalmente se elevou aos procedimentos oficiais da Igreja. O processo de canonização significa que o Vaticano reconhece como parte da "história mundial" a história de sofrimentos que os imigrantes japoneses suportaram na terra do Brasil.
Pode-se dizer que é um evento histórico que marca a conclusão da "naturalização espiritual dos imigrantes japoneses". Quando a vida de uma mulher japonesa for reconhecida como santidade universal do cristianismo, a história da comunidade nikkei será eternamente gravada na história espiritual do Brasil e do mundo.
Escada para o céu - próximos passos e futuro
O caminho para a "santidade" no Vaticano é uma jornada infinita como escalar uma montanha íngreme. O processo tem basicamente 3 etapas, e atualmente está na primeira etapa, a "Fase Diocesana". O mais importante nesta etapa não é o reconhecimento de "milagres" sobrenaturais, mas sim se a pessoa possuía "virtudes heroicas" de acordo com o evangelho. Atualmente, o comitê assegurou 55 testemunhas e está avançando no trabalho de documentar testemunhos sobre suas atividades de apoio, espiritualidade e "graças" obtidas através dela.
As "graças" aqui se referem à paz de espírito que os fiéis sentiram quando oraram a ela, ou a eventos misteriosos. Por exemplo, o episódio do "perfume de flores (fragrância)" que Andrea, sua neta, sentiu pouco antes de Dona Margarida morrer, é um dos testemunhos importantes considerado como presságio de santidade no catolicismo. Se a investigação avançar, receberá o título de "Serva de Deus", seguido de "Venerável".
Se um primeiro milagre for reconhecido, torna-se "Beata", e com um segundo milagre finalmente chega a "Santa". Diz-se que o reconhecimento requer pelo menos mais de 20 anos, e talvez a geração atual não consiga presenciar o desfecho.
No entanto as pessoas que promovem o movimento explicam que justamente esse "tempo" é importante. "O reconhecimento como resultado também é importante, mas repensar nossa própria forma de viver através deste processo já é, por si só, um milagre." O trabalho meticuloso de organização de documentos é nada menos que um ritual sagrado para escavar as "economias de compaixão" invisíveis que ela deixou e conectá-la ao futuro.
Nossa Senhora com traços japoneses enraizada no Brasil
Ao final da missa, os participantes cantaram "Coração de Maria". Quando o canto parou e saíram da Igreja de São Gonçalo, o céu de São Paulo estava envolto em céu azul cristalino, como nas palavras da canção. As expressões dos nikkeis participantes eram uniformemente radiantes, e em seus olhos parecia habitar silenciosa, mas ardentemente, a "chama do amor" que Dona Margarida deixou.
Uma garota nascida em Makurazaki, província de Kagoshima, que sacrificou sua vida em terra estrangeira para ajudar a família. A caridade que ela encarnou no Brasil foi uma luz universal da humanidade, na qual o espírito japonês de autossacrifício e o amor cristão ao próximo se fundiram magnificamente. Essa luz agora, transcendendo a comunidade nikkei, começou a subir a escada para se tornar uma "santa mundial" que ilumina todas as pessoas em sofrimento. O caminho para a canonização apenas começou.
A história de Nossa Senhora enraizada no Brasil e que guarda traços do Japão certamente continuará ecoando como um "hino de esperança" sem fim no coração de muitas pessoas. (Masayuki Fukasawa)








