Ryo Asano: "Sangue Pardo" - "Amor Turvo (1ª Parte)" = Uma jornada para explorar o ponto crítico do coração japonês (1)

Outrora, no período nascente da literatura japonesa, o primeiro Prêmio Akutagawa foi para "Sōbō", obra de Tatsuzo Ishikawa que retratava os japoneses que imigravam para o Brasil. Passados aproximadamente 90 anos, nasceu novamente um romance longo que retrata frontalmente a realidade dos imigrantes. Trata-se de "Sangue Pardo" (tradução literal, editora Gentōsha) de Ryō Asano. "Amor Turvo (1ª parte)" (www.amazon.co.jp/dp/B0FL1M3WWT), é um prólogo denso que retrata os conflitos de discriminação e amor, imigração e família, tendo como cenário o Brasil de meados dos anos 1970.
O autor Ryō Asano imigrou para o Brasil nos anos 1970 e trabalhou como repórter no Jornal Paulista. Durante os três anos de permanência, conheceu a esposa nikkei de terceira geração e, após retornar ao país, destacou-se como jornalista. Sob o pseudônimo de Yukiharu Takahashi, recebeu o Prêmio Ushio de Não-ficção por "Paraíso do Mar do Caribe", que investigou o problema dos imigrantes japoneses na República Dominicana, e o Prêmio Kodansha de Não-ficção por "Terra dos Sōbō", que retratou os conflitos entre kachigumi e makegumi do ponto de vista das famílias. Posteriormente, começou a escrever romances sob o pseudônimo de Ryō Asano, e "Órgãos da Morte" foi adaptado para drama televisivo pela WOWOW em 2015.
Ryō Asano, que possui a trajetória peculiar de ex-imigrante no Brasil, mantém constantemente a consciência problemática de tatear a linha fronteiriça da identidade, o ponto crítico do coração sobre "até onde se é japonês", em meio à era da globalização onde capital, serviços e produtos atravessam fronteiras com facilidade. A jornada espiritual que segue as linhas fronteiriças dos japoneses é também um percurso perigoso que pisa cuidadosamente nas minas terrestres do exclusivismo que se esconde na fronteira entre nacionalismo e globalismo.
Ryōtarō Shiba, em "A Forma Deste País 1" (páginas 23-24), fez o alerta: "O nacionalismo é, originalmente, algo que deveria ser mantido quietamente adormecido. Sair propositalmente ateando fogo a isso deveria ser considerado uma operação proveniente de intenções políticas de alto nível (ou altamente maliciosas), e a história deixou muitos exemplos de que, quando abalada repetidamente por esse método, uma nação e um povo chegam à ruína".
No Japão atual, devido ao aumento drástico de trabalhadores estrangeiros, o nacionalismo que "originalmente deveria ser mantido quietamente adormecido" está sendo incitado. A transmissão irresponsável de informações pelas redes sociais acelera isso, e pequenos grupos de direita como os "netouyo" estão aumentando sua presença. Diante dessa mudança ambiental de aumento drástico de estrangeiros ao redor, são muito raros os escritores capazes de expressar como romance, baseando-se em suas próprias experiências, o problema social dos japoneses cuja identidade se abala. Nesse sentido, Ryō Asano é uma existência rara.
No centro desta obra estão dois jovens: Shōtarō Kodama e Seiichi Komiya. Ambos, que tiveram que aceitar a dor da discriminação no Japão, tentam abrir um novo capítulo de suas vidas na nova terra, Brasil. Kodama vai para São Paulo como jornalista, carregando no peito a separação de sua namorada Park Mija, uma coreana-japonesa de segunda geração. Ela lhe disse "não há como coreanos discriminados e japoneses que discriminam viverem juntos" e rejeitou o amor sobrepondo-o ao desespero. Kodama, carregando essa ferida, mergulha na sociedade nikkei de São Paulo e gradualmente constrói uma família com uma mulher nikkei de terceira geração. (Continua, repórter Masayuki Fukasawa)