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Contradições na política de aceitação de estrangeiros e problemas familiares complexos de filhos de brasileiros residentes no Japão são abordados no Simpósio Internacional do CIATE (Coluna do Repórter)

09/12/2025

 As condições de vida dos trabalhadores brasileiros e de suas crianças que vivem no Japão continua enfrentando questões complexas há 40 anos——. Em particular, os problemas dos pais e as contradições da política de recepção de estrangeiros da sociedade japonesa não estariam se concentrando no ambiente que cerca as crianças estrangeiras residentes no Japão?

 Para discutir essas questões, foi realizada nos dias 29 e 30 de novembro o Simpósio Internacional do Centro de Informação e Assistência a Trabalhadores no Exterior (CIATE) de 2025, com o tema "Situação dos Trabalhadores Nikkeis no Japão na Era das Mudanças Sociais", no salão nobre da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social, que foi tratada pela reportagem.

 Nessa conferência, na qual especialistas que trabalham no apoio a trabalhadores estrangeiros se reuniram para discutir a situação real e a direção do apoio, foram apontados sucessivamente problemas que não podem ser ignorados, como ambiente familiar, falta de apoio educacional e isolamento que se perpetua entre gerações.

Apresentação do Dr. Tsuchiya
Apresentação do Dr. Tsuchiya

 Ambiente familiar precário causa impacto negativo no desenvolvimento infantil


 Na manhã do dia 30, o Dr. Kenji Tsuchiya, do Centro de Pesquisa de Desenvolvimento Mental Infantil da Universidade de Medicina de Hamamatsu, fez uma palestra online sobre "Adultos e crianças brasileiros no Japão com problemas de saúde mental". Ele recebe consultas de filhos de brasileiros residentes no Japão e apresentou alguns casos.

 Na consulta de um menino do primeiro ano do ensino médio nascido no Japão, ele ouviu o seguinte relato: "Cresci em um ambiente familiar onde meu pai, que normalmente não está em casa, às vezes volta e briga com minha mãe, pratica violência doméstica e também me dá sermões. Gradualmente parei de ir à escola e passo o dia na cama olhando o celular".

 A mãe tem um namorado jovem, que recentemente levou ela e o filho para um passeio de carro. Houve uma grande briga dentro do carro, e mãe e filho foram arrastados para fora do veículo, xingados e espancados. "Quando penso que ele pode vir novamente, fico com medo e tremo." Então pediu à mãe para não deixar o namorado entrar em casa, mas não houve melhora.

 Para garantir a segurança do filho, iniciaram os preparativos para tratamento hospitalar, mas a mãe resistiu veementemente. O pai também apareceu dizendo: "Se internarem meu filho num hospital japonês, vou levá-lo para o Brasil", e a tentativa de internação fracassou. Para considerar a proteção temporária do filho, solicitaram intervenção do Centro de Orientação Infantil da Província de Shizuoka. Com o consentimento da mãe, foi iniciado tratamento psicológico e farmacológico completo para o filho, segundo foi explicado.

 Em outro caso, apresentou um jovem que frequentava escola pública japonesa, mas não conseguiu se adaptar e transferiu-se para escola brasileira. Aos 17 anos tornou-se difícil para ele ir à escola, começou a se trancar em casa, e a mãe, preocupada, o levou ao hospital. Durante a consulta, ele falava inglês, não português ou japonês. O Dr. Tsuchiya, como médico responsável, fazia perguntas em inglês, ele respondia em inglês, o médico transmitia isso ao pai em japonês, e o pai transmitia à mãe em português - uma consulta complexa.

 Suas queixas eram de difícil compreensão, como "o cérebro tem breakdown" e "quando há breakdown, sinto uma vontade incontrolável de comer".

 O Dr. Tsuchiya diagnosticou que "pela convivência com a mãe, que não tem horários estabelecidos, ele também não consegue estabelecer um ritmo de vida diária", indicando problemas familiares, e está realizando terapia medicamentosa para suprimir ansiedade e depressão, mas relatou que há poucos sinais de melhora.

Vista geral da conferência
Vista geral da conferência

 Educação obrigatória japonesa não é obrigatória para filhos de estrangeiros


 O Dr. Tsuchiya apontou que "estrangeiros residentes no Japão têm barreiras linguísticas por não saberem japonês, limitando as instituições de apoio disponíveis", citando como soluções tradução médica e multilinguismo nos serviços administrativos, e criticou "a escassez de qualidade e quantidade no atendimento de escolas e professores às crianças", argumentando que "Venha à escola quando quiser" não motiva as crianças a frequentar a escola, e que a própria vontade de aprender das crianças está sendo menosprezada.

 Por trás disso está a realidade de que estima-se que nem metade dos filhos de brasileiros residentes no Japão se forme no ensino médio japonês. Isso ocorre porque na educação obrigatória japonesa, filhos de japoneses não se formam sem entender o conteúdo das aulas, e, se faltam à escola, professores fazem visitas demonstrando preocupação, mas filhos de estrangeiros são deixados de lado. Há grandes diferenças entre governos locais, e certamente alguns fazem um bom trabalho.

 Sobre isso, este colunista concorda com o conteúdo publicado pela professora associada Yoshimi Kojima da Universidade de Línguas Estrangeiras de Tóquio em 1º de julho de 2022 no Nippon.com, intitulado "Apoio educacional para crianças estrangeiras no Japão: Criação urgente de sistema para educação igualitária" (https://www.nippon.com/ja/in-depth/d00814/).

 Segundo ela: "Em setembro de 2019, foi revelado pela primeira vez em escala nacional pela pesquisa sobre situação de frequência escolar de crianças estrangeiras (2019) do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia que aproximadamente 20.000 delas podem não estar frequentando a escola. Isso indica que cerca de 1 em cada 5 crianças estrangeiras (18,1%) no Japão podem estar em situação de não frequência escolar. Quando comparamos esse número com o relatório da UNESCO publicado no mesmo período de 2019, a gravidade se torna evidente. Isso porque é quase igual à região África Subsaariana (18,8%), que tem a maior proporção mundial de crianças que não frequentam escola (educação primária)".

 Kojima cita o site do Ministério da Educação (www.mext.go.jp/a_menu/shotou/shugaku/detail/1422256.htm), em que está escrito sobre a pergunta "Que pontos requerem atenção nos procedimentos relacionados à matrícula escolar de crianças estrangeiras?": "Em nosso país, não há obrigação de matrícula escolar para pais de crianças estrangeiras, mas, quando desejam matricular-se em escolas públicas de educação obrigatória, baseando-se também no pacto internacional dos direitos humanos, aceitamos essas crianças gratuitamente da mesma forma que estudantes japoneses".

 Ou seja, o próprio Ministério da Educação declara claramente que "não há obrigação de matrícula escolar para pais de crianças estrangeiras". Por isso surge a realidade que o Dr. Tsuchiya aponta como "escassez de qualidade e quantidade no atendimento de escolas e professores às crianças", e parece haver uma realidade em que filhos de estrangeiros são facilmente negligenciados na educação obrigatória.

 Além disso, o Dr. Tsuchiya listou também problemas do lado dos brasileiros residentes: "homens egoístas", "muitos homens que buscam soluções baseadas na força" e "muitos adultos que não conhecem o prazer de aprender".

 Adicionalmente, apontou o problema do "envelhecimento/isolamento social intergeracional" dos brasileiros residentes, analisando que "a entrada de novas gerações jovens é limitada", "adultos que continuaram residindo após 2010 estão envelhecendo, se deteriorando e se isolando" e "seus filhos estão sendo influenciados pelo comportamento dos pais".


 Após crise financeira, deterioração educacional e envelhecimento se intensificaram


 O Dr. Tsuchiya apresentou um gráfico dos brasileiros residentes por faixa etária em 2005 e analisou que a situação mudou drasticamente após a crise financeira mundial de 2008. Sobrepondo o número de retornados ao Brasil em 2009, quando houve apoio governamental japonês para retorno, revelou a realidade de que a faixa que mais permaneceu no Japão após 2009 foram os quarentões, que agora, quase 20 anos depois, estão se aproximando dos 60 anos e envelhecendo.

 Caracterizou os retornados desta época como "pessoas com alta escolaridade, não empregados, não trabalhadores", apontando "jovens de 20 anos ou menos", "pessoas com alta escolaridade universitária ou superior" e "residentes de curto prazo, menos de 5 anos". Inversamente, explicou que a camada que escolheu residência permanente no Japão tendia a ser "mais velha", "com muitas pessoas de baixa escolaridade" e "muitas pessoas que não conseguem aproveitar sua experiência profissional japonesa no Brasil".

 Na visão deste colunista, isso resulta do envelhecimento das gerações até a terceira que podiam vir ao Japão, com mais de 100.000 pessoas, principalmente jovens, saindo e retornando ao Brasil durante a crise. O próprio governo japonês reforçou essa tendência com políticas de apoio ao retorno.

 Se essa geração jovem tivesse permanecido no Japão, a próxima geração estaria crescendo no Japão agora. Mas isso não aconteceu, e, além disso, os requisitos do visto de quarta geração são muito rigorosos, não há novas gerações vindo ao Japão, acelerando a deterioração educacional e o envelhecimento.


Dra. Nakagawa expressando opinião
Dra. Nakagawa expressando opinião

 Problemas educacionais se repetindo há 30 anos


 A partir de certo ponto, juntou-se também a Dra. Kyoko Nakagawa, psiquiatra residente em São Paulo que há mais de 10 anos desenvolve o Projeto Kaeru de apoio a filhos de dekasseguis retornados, que apresentou uma análise dessa experiência: "O ambiente das crianças residentes no Japão não é apenas problema de idioma. O ambiente familiar em si - em que os pais têm muito estresse com horas extras e pouco tempo para se comunicar com os filhos, muitas mudanças de emprego e pouco relacionamento com vizinhos, ou seja, fraco senso de pertencimento social - tem profunda influência no desenvolvimento e formação de identidade das crianças. O caso da criança que responde em inglês neutro durante consultas, idioma que permite comunicação apenas com o médico, não no português ou japonês que qualquer dos pais poderia usar, é exatamente um caso que sugere problemas de relacionamento com os pais. A capacidade de usar múltiplos idiomas é maravilhosa, mas todos tendem a ficar superficiais. Para atingir um nível sólido em qualquer idioma, é necessário esforço correspondente, e para isso é fundamental poder receber educação adequada. Há problemas na situação atual na qual a educação obrigatória japonesa não é obrigatória para filhos de estrangeiros. Esses problemas têm se repetido surpreendentemente por 20, 30 anos. Concordo plenamente com as preocupações do Dr. Tsuchiya sobre as crianças".

Presidente Ninomiya entregando certificado de agradecimento à advogada Marcia Koshiba
Presidente Ninomiya entregando certificado de agradecimento à advogada Marcia Koshiba

 Diferenças na abordagem policial entre Japão e Brasil


 A advogada Marcia Koshiba, uma das três brasileiras registradas como advogadas de assuntos estrangeiros no Japão, também palestrou sobre "Casos jurídicos de Brasileiros no Japão". "Houve realmente uma consulta dizendo 'Meu filho foi levado por ordem do Centro de Orientação Infantil. Não há nada que possa ser feito?'. No Japão, quando há violência doméstica, são muitos os casos em que a criança é retirada de casa. É necessária mais campanha de conscientização sobre violência doméstica".

 Além disso: "No Japão não há Lei Maria da Penha (lei de punição rigorosa contra violência doméstica). No Japão, quando se trata de violência doméstica mental sem violência física, a polícia trata apenas como 'consulta' e não se empenha muito. No Brasil o agressor é retirado de casa, mas no Japão é normal a vítima sair de casa. Há várias diferenças entre os sistemas judiciais japonês e brasileiro, então é importante entender bem as diferenças. Consultem quando houver qualquer problema, seja no Japão ou no Brasil". Contatos do Escritório de Direito Estrangeiro Marcia: Província de Aichi, Okazaki (+81-80-6904-7960), Brasil (+55-44・99161-3410).

Presidente Tamura recomendando folheto em português que resume concisamente o sistema de seguridade social japonês
Presidente Tamura recomendando folheto em português que resume concisamente o sistema de seguridade social japonês

 A partir do próximo ano, inadimplência tributária incluindo seguridade social afetará renovação de visto


 Erika Tamura, presidente da organização não governamental Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão (SABJA), fez palestra sobre "O Rigor da Fiscalização em 2026 na Contribuição Previdenciária", alertando: "A partir do próximo ano, espera-se mais rigor e estrangeiros inadimplentes com impostos, incluindo seguridade social, serão afetados na renovação de vistos, e também se prevê endurecimento dos requisitos de japonês. Há muitas informações não confiáveis na internet, mas há cláusulas corretas e detalhadas no site do Consulado Geral do Brasil em Tóquio. Então verifiquem cuidadosamente por conta própria", recomendando especialmente a leitura do folheto em português que explica os fundamentos da seguridade social japonesa (https://www.gov.br/mre/pt-br/consulado-toquio/arquivos/nosso-futuro.pdf). Contato SABJA (Japão +81-50-6861-6400, nposabja@gmail.com)


 Como construir uma sociedade que convive com estrangeiros


 A conferência mostrou que os problemas enfrentados pelos brasileiros residentes no Japão não se limitam apenas a "idioma" ou "ambiente de trabalho", mas têm raízes em estruturas multifacetadas e de longo prazo, incluindo relações familiares, educação e conexões com a comunidade local. É necessário não apenas melhorar o sistema de recepção do Japão, mas também elevar a consciência dos próprios brasileiros. Os relatórios dos especialistas destacaram novamente a necessidade de revisão do sistema de apoio e promoção da compreensão de toda a sociedade.

 "Como receber estrangeiros como residentes de longo prazo e imigrantes?" "Como construir uma sociedade que consegue conviver com estrangeiros?" —— A sociedade japonesa chegou ao momento de enfrentar frontalmente essas questões. (Masayuki Fukasawa)

★Vídeo ao vivo do evento = Japonês (www.youtube.com/watch?v=aqD1p6SE8uE), Português (www.youtube.com/watch?v=gtsu-EeRRmw)


ARTIGOS DE REFERÊNCIA

《Coluna do repórter》Qual é a essência do problema dos estrangeiros?=Ponto de disputa das eleições para Câmara Alta com perda da maioria do partido governista=Perspectiva de japoneses residentes no exterior (22 de julho de 2025)

https://brasilnippou.com/ja/articles/250722-column

《Coluna do repórter》Como fica o emprego no Japão com apogeu do programa de estágio técnico?="Estudem japonês e busquem emprego direto" = Era em que brasileiros comuns vão para treinamento de desenvolvimento? (12 de novembro de 2024)

https://brasilnippou.com/ja/articles/241112-column

《Coluna do repórter》Reconhecimento da realidade do Japão como país de imigração = Por que a educação de filhos de estrangeiros está no nível da África? (6 de fevereiro de 2024)

https://brasilnippou.com/ja/articles/240206-column

《Coluna do repórter》O tesouro da geração Lehman Shock=Maior flexibilização dos requisitos do visto de 4ª geração (10 de outubro de 2023)

https://brasilnippou.com/ja/articles/231010-column

《Coluna do repórter》Governo japonês iniciou "segundo abandono"=Nikkeis idosos desnecessários, jovens asiáticos em foco (25 de janeiro de 2022)

https://brasilnippou.com/ja/articles/220125-column


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